Leandro Bahiah[1]
No sábado, dia 12, houve um batizado de capoeira na cidade de Boa Nova que, na oportunidade, graduou alunos iniciantes, estagiários, contramestres e mestres. O evento celebrou os 30 anos de capoeira em Boa Nova, contou com a organização do Me. Amado e teve a realização da Associação de Capoeira Alegria do Me. Canjiquinha e Mestre Roque.
O batizado contou com capoeiristas de toda a região, inclusive da capital baiana, representada pelo Me. Roque. Teve a presença de mestres e contramestres de cidades como Dário Meira, Poções, Manoel Vitorino, Planalto, Ipiaú e Ibitupã.
Figura 1 – Batizado de capoeira celebrando os 30 anos em Boa Nova.
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| Fonte: Santos (2026). |
O evento foi um sucesso de
público, com oferecimento de almoço e jantar para os convidados — um momento de
festa e celebração no qual os capoeiristas puderam confraternizar, colocar a
resenha em dia e jogar, mostrando, cada um à sua maneira, as habilidades
adquiridas ao longo dos anos. Até mesmo a demora na finalização do evento foi
um detalhe diante de tantas homenagens emocionantes.
1. A
Importância da Capoeira: Cultura, Resistência e Inclusão
A capoeira transcende o
aspecto esportivo: ela é um Patrimônio Imaterial da Humanidade que une luta,
dança, música, ancestralidade e transformação social. Em comunidades como
Ibitupã e em diversos municípios do interior baiano, o jogo da capoeira atua como
uma ferramenta fundamental de inclusão e resgate para crianças e jovens,
ensinando disciplina, respeito às origens e convivência comunitária, porque,
como afirmava Me. Pastinha (1964), “a capoeira é tudo que a boca come e tudo
que o corpo dá”.
Figura 2 – Graduações de mestres.
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| Fonte: Santos (2026). |
Nota-se que, em muitos
municípios, persiste a ausência de fomento financeiro e suporte estrutural por
parte da gestão pública para com a capoeira. Tal cenário contradiz marcos
normativos locais, a exemplo do município de Ibicuí-BA, que instituiu a Lei nº
142/2022. O referido texto legal dispõe sobre a autorização ao Poder Executivo
para a inclusão do ensino da capoeira nas escolas municipais (Ibicuí, 2022, p.
1).
1.1 Resgate
Todos os capoeiristas,
familiares e simpatizantes, após o almoço, saíram da Creche Municipal Tia
Licinha e foram a pé até o Colégio Boanovense, onde foi realizado o batizado.
No percurso, sob um sol e temperatura que atingiram a marca de 27 °C a 28 °C no
início da tarde, os capoeiristas cantaram, celebraram e ecoaram cantos de
resistência e homenagens aos mestres póstumos.
Começaram o evento com
apresentações culturais como maculelê e puxada de rede, nas quais os
capoeiristas deram um show de acrobacias e cantos — o público foi ao delírio e
aplaudiu a cada movimento dos artistas.
2. A
Hierarquia e o Papel Fundamental dos Mestres
Na capoeira, a hierarquia
não se apoia na imposição, mas no respeito à vivência, à ancestralidade e ao
saber acumulado ao longo das décadas. O mestre é o guardião dos fundamentos,
aquele que conduz a bateria, transmite os cantos e orienta a conduta dos discípulos
dentro e fora da roda.
Neste sentido, Me. Pastinha
defendia que a “capoeirista não é aquele que sabe movimentar o corpo, e sim
aquele que se deixa movimentar pela alma”, ou seja, existe uma filosofia
que só que joga capoeira consegue dimensionar.
2.1 Hierarquia
O Me. Roque fez uma
intervenção e quebrou o ritmo previsto das apresentações: ele solicitou ao Me. Amado,
anfitrião da festa, que antecipasse a graduação dos mestres. O argumento do Me.
Roque foi que, sendo a graduação de mestre o destaque principal do evento,
seria melhor realizá-la em primeiro lugar para aproveitar a presença massiva do
público. Mesmo a contragosto, o Me. Amado acatou a sugestão por respeitar a
visão e o pedido do seu mestre de fato e de direito.
Reside aqui a beleza da
capoeira; mesmo a contragosto, coube ao mestre respeitar o seu discipulado,
mesmo ele tendo o poder de não acatar. “Agora vocês são mestres”, pontuou Me.
Amado e prosseguiu: “alguns podem querer deixar o grupo, mas digo que a traição
de um aluno é pior do que de uma mulher”.
No fim, o Me. Amado apela
para que, independentemente de qualquer coisa, os mestres e demais alunos
sempre respeitem o seu mestre. Foi o que acabara de fazer, acatando o pedido de
Me. Roque; ademais, é irrelevante a fala se ela não viercom uma ação de
respeito perante a todos.
3. O
Papel do Contramestre: A Ponte Entre o Aprendizado e a Liderança
O grau de contramestre
representa um divisor de águas na caminhada do capoeirista. Ele já não é
somente um praticante experiente, mas sim um multiplicador do conhecimento,
braço direito do mestre e líder direto na comunidade. O contramestre assume o
compromisso de manter viva a tradição, formar novos alunos e desenvolver
projetos de relevância social.
A apresentação dos
contramestres encerrou o ciclo das graduações, momento em que Ibitupã contou
com a presença de três candidatos. Ao término da entrega das cordas e de muitas
homenagens, foi ressaltado o trabalho destes professores na atuação em serviços
sociais e na propagação da arte da capoeira.
Implica uma responsabilidade
colossal, considerando que esses educadores atuam quase como figuras parentais,
frequentemente incumbidos da missão de instruir e guiar seus alunos rumo à
conduta virtuosa. Ademais, os genitores confiam plenamente na presença do
profissional, permitindo que seus filhos frequentem a academia sob a supervisão
de quem detém tal titulação, independentemente de quão modesta seja.
3.1 Os Contramestres
de Ibitupã
3.1.1 Juedison Ferreira
O professor Risadinha foi um
dos agraciados e, com seu jogo seguro, mereceu a graduação. Ele atua na
capoeira há mais de vinte e seis anos. No momento, trabalha como coordenador do
PSF Antônio Kallil Dourado, em Ibitupã, e na Clínica São Roque, em Ipiaú.
Unindo a capoeira e a vaquejada (sua outra paixão), Juedison Ferreira continua
fazendo seu trabalho com leveza e muita resenha.
3.1.2 Amauri Leão
O professor tem vinte e seis
anos de capoeira. A princípio, relutou em pegar a corda; no entanto, no momento
em que os mestres o chamaram, convenceram-no a aceitar sua graduação. O
capoeirista tem serviços prestados ao esporte, seja como professor ou como
político. Já foi candidato a vereador e, católico desde que se entende por
gente, viu no trabalho social o motivo para enfrentar as adversidades da vida.
3.1.3 Adenilson de Oliveira
O professor Cabeça foi um
dos que merecidamente recebeu a corda de contramestre, principalmente pelo seu
trabalho junto à comunidade de Ibitupã, distrito localizado no município de
Ibicuí.
No momento, ele dá aulas
gratuitamente, sem nenhuma ajuda do poder público municipal. Por ser versátil,
já participou da Banda Nazzueira nos anos 2000 e é o idealizador de eventos
como As Nossas Raízes e o Vou Capoeirar. Agente cultural e
social, ele faz um trabalho primoroso orientando crianças e adolescentes na
prática da capoeira, muitas vezes empregando energia e recursos financeiros
próprios para ver o projeto dar certo.
Um dos capoeiristas mais
respeitados, ascendeu rapidamente no grupo Filhos de Canjiquinha, ganhando
elogios de mestres como Darkson Alves (Kinho) e Luciano Thiago (Me. Pó).
4. Os
Mestres e a Continuidade do Legado
Segundo Dias Gomes, “[…] a
capoeira não tem credo, não tem cor, não tem bandeira, ela é do povo, vai
correr o mundo.” Neste sentido, concorda com autor o Cme. Cabeça quando afirma
que:
A capoeira é laica no sentido restrito porque ela comporta praticantes
de todas as religiões. Então, ela é inclusiva, uma vez que joga gordo, magro;
preto e branco; pobre e rico. Mesmo eu tendo ciência de que ela (capoeira) é
uma ferramenta de transformação social que carrega uma transcendência
afro-brasileira. A Capoeira é instrumento de resistência e luta de um povo que fora
escravizado, a maioria destes ligada a praticantes de religiões de matriz
africana […] (CABEÇA, 2026).
Os ibitupaenses alegraram-se
com as graduações dos Mes. Darkson Alves e Luciano Thiago — ou seja, Kinho e
Pó. Apesar de serem da cidade vizinha de Dário Meira, eles têm uma forte
ligação com a capoeira ibitupaense, ao serem os precursores da arte no
distrito, e suas histórias se confundem com a própria trajetória dessa nobre
arte na região.
Figura 3 – GMe. Pó e Me. Amado.
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| Fonte: Santos (2026). |
5.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O reconhecimento e o
fortalecimento da capoeira em Ibitupã repercutiram amplamente na sociedade
civil e em diversas instituições locais. Demonstração disso foram as notas
formais de congratulações publicadas por entidades como o Clube Ibitupaense de
Xadrez, a Unidade de Reforço Escolar Edezio Pereira dos Santos e o Partido
Socialismo e Liberdade (PSOL) de Ibicuí-BA, reafirmando o valor sociocultural e
educativo do trabalho desempenhado pelos novos contramestres no município.
Contudo, apesar das
felicitações e do amparo moral vindo de tais instâncias, ainda falta um
reconhecimento incisivo por parte do poder público, especialmente mediante a
alocação contínua de recursos financeiros e investimentos estruturais. A
prática da capoeira não pode depender unicamente do esforço voluntário ou do
custeio próprio de seus agentes para se manter viva e atuante.
A ascensão de Juedison
Ferreira (Risadinha), Amauri Leão e Adenilson de Oliveira (Cabeça) ao grau de
contramestres simboliza a consolidação de um trabalho comunitário
persistentemente erguido. Por fim, o evento em Boa Nova e o destaque alcançado
por Ibitupã reforçam que celebrar os 30 anos dessa história exige também a
cobrança por políticas públicas efetivas, garantindo que o berimbau continue
ecoando com o devido suporte institucional e financeiro para as futuras
gerações.
Mesmo diante dessa
necessidade de apoio institucional, ter três novos contramestres coloca Ibitupã
em lugar de destaque, trazendo um orgulho que ultrapassa as rodas e alcança
toda a sociedade local.
Referências
CANJIQUINHA, Me. (Washington Bruno da Silva, 1925–1994). Alegria
da Capoeira: Tradição e Fundamentos da Capoeira Baiana. Salvador, BA.
Disponível em: https://www.fundacaocultural.ba.gov.br.
CLIMATEMPO. Dados meteorológicos e registro de
temperatura para Boa Nova (BA) em 12 de setembro de 2026. São Paulo,
SP, 2026. Disponível em: https://www.climatempo.com.br/previsao-do-tempo/cidade/2493/boanova-ba.
GOMES, Dias (1922–1999). Citações e Pensamentos sobre
a Capoeira e a Cultura Popular Brasileira. Rio de Janeiro, RJ.
Disponível em: https://www.academia.org.br.
IBICUÍ (BA). Lei nº 142, de 27 de maio de 2022.
Dispõe sobre a autorização ao Poder Executivo para a inclusão do ensino da
Capoeira nas Escolas do Município de Ibicuí-Bahia, e dá outras providências.
Diário Oficial do Município de Ibicuí, ano 10, n. 2424, p. 2-4, 1 jun. 2022.
PASTINHA, Me. (Vicente Ferreira Pastinha, 1889–1981). Capoeira
Angola. Salvador: Editora Typographia Beneditina, 1964. Disponível em: http://www.iphan.gov.br.
SANTOS, Calyane. Capoeiristas reunidos durante o batizado de capoeira
em Boa Nova. 2026
[1]
Graduado em Pedagogia pela Unopar (2019) e Pós-graduado em Psicopedagogia
Institucional e Clínica pela Faveni em (2020).






















