segunda-feira, 14 de setembro de 2026

OPINIÃO | TRADIÇÃO E RESPEITO: O IMPACTO DOS TRÊS NOVOS CONTRAMESTRES EM IBITUPÃ

 

Leandro Bahiah[1]

 

No sábado, dia 12, houve um batizado de capoeira na cidade de Boa Nova que, na oportunidade, graduou alunos iniciantes, estagiários, contramestres e mestres. O evento celebrou os 30 anos de capoeira em Boa Nova, contou com a organização do Me. Amado e teve a realização da Associação de Capoeira Alegria do Me. Canjiquinha e Mestre Roque.

O batizado contou com capoeiristas de toda a região, inclusive da capital baiana, representada pelo Me. Roque. Teve a presença de mestres e contramestres de cidades como Dário Meira, Poções, Manoel Vitorino, Planalto, Ipiaú e Ibitupã.

                                          Figura 1 – Batizado de capoeira celebrando os 30 anos em Boa Nova.

Fonte: Santos (2026).

O evento foi um sucesso de público, com oferecimento de almoço e jantar para os convidados — um momento de festa e celebração no qual os capoeiristas puderam confraternizar, colocar a resenha em dia e jogar, mostrando, cada um à sua maneira, as habilidades adquiridas ao longo dos anos. Até mesmo a demora na finalização do evento foi um detalhe diante de tantas homenagens emocionantes.

1. A Importância da Capoeira: Cultura, Resistência e Inclusão

A capoeira transcende o aspecto esportivo: ela é um Patrimônio Imaterial da Humanidade que une luta, dança, música, ancestralidade e transformação social. Em comunidades como Ibitupã e em diversos municípios do interior baiano, o jogo da capoeira atua como uma ferramenta fundamental de inclusão e resgate para crianças e jovens, ensinando disciplina, respeito às origens e convivência comunitária, porque, como afirmava Me. Pastinha (1964), “a capoeira é tudo que a boca come e tudo que o corpo dá”.

                                         Figura 2 – Graduações de mestres.

Fonte: Santos (2026).

Nota-se que, em muitos municípios, persiste a ausência de fomento financeiro e suporte estrutural por parte da gestão pública para com a capoeira. Tal cenário contradiz marcos normativos locais, a exemplo do município de Ibicuí-BA, que instituiu a Lei nº 142/2022. O referido texto legal dispõe sobre a autorização ao Poder Executivo para a inclusão do ensino da capoeira nas escolas municipais (Ibicuí, 2022, p. 1).

1.1 Resgate

Todos os capoeiristas, familiares e simpatizantes, após o almoço, saíram da Creche Municipal Tia Licinha e foram a pé até o Colégio Boanovense, onde foi realizado o batizado. No percurso, sob um sol e temperatura que atingiram a marca de 27 °C a 28 °C no início da tarde, os capoeiristas cantaram, celebraram e ecoaram cantos de resistência e homenagens aos mestres póstumos.

Começaram o evento com apresentações culturais como maculelê e puxada de rede, nas quais os capoeiristas deram um show de acrobacias e cantos — o público foi ao delírio e aplaudiu a cada movimento dos artistas.

2. A Hierarquia e o Papel Fundamental dos Mestres

Na capoeira, a hierarquia não se apoia na imposição, mas no respeito à vivência, à ancestralidade e ao saber acumulado ao longo das décadas. O mestre é o guardião dos fundamentos, aquele que conduz a bateria, transmite os cantos e orienta a conduta dos discípulos dentro e fora da roda.

Neste sentido, Me. Pastinha defendia que a “capoeirista não é aquele que sabe movimentar o corpo, e sim aquele que se deixa movimentar pela alma”, ou seja, existe uma filosofia que só que joga capoeira consegue dimensionar.

2.1 Hierarquia

O Me. Roque fez uma intervenção e quebrou o ritmo previsto das apresentações: ele solicitou ao Me. Amado, anfitrião da festa, que antecipasse a graduação dos mestres. O argumento do Me. Roque foi que, sendo a graduação de mestre o destaque principal do evento, seria melhor realizá-la em primeiro lugar para aproveitar a presença massiva do público. Mesmo a contragosto, o Me. Amado acatou a sugestão por respeitar a visão e o pedido do seu mestre de fato e de direito.

Reside aqui a beleza da capoeira; mesmo a contragosto, coube ao mestre respeitar o seu discipulado, mesmo ele tendo o poder de não acatar. “Agora vocês são mestres”, pontuou Me. Amado e prosseguiu: “alguns podem querer deixar o grupo, mas digo que a traição de um aluno é pior do que de uma mulher”.

No fim, o Me. Amado apela para que, independentemente de qualquer coisa, os mestres e demais alunos sempre respeitem o seu mestre. Foi o que acabara de fazer, acatando o pedido de Me. Roque; ademais, é irrelevante a fala se ela não viercom uma ação de respeito perante a todos.

3. O Papel do Contramestre: A Ponte Entre o Aprendizado e a Liderança

O grau de contramestre representa um divisor de águas na caminhada do capoeirista. Ele já não é somente um praticante experiente, mas sim um multiplicador do conhecimento, braço direito do mestre e líder direto na comunidade. O contramestre assume o compromisso de manter viva a tradição, formar novos alunos e desenvolver projetos de relevância social.

A apresentação dos contramestres encerrou o ciclo das graduações, momento em que Ibitupã contou com a presença de três candidatos. Ao término da entrega das cordas e de muitas homenagens, foi ressaltado o trabalho destes professores na atuação em serviços sociais e na propagação da arte da capoeira.

Implica uma responsabilidade colossal, considerando que esses educadores atuam quase como figuras parentais, frequentemente incumbidos da missão de instruir e guiar seus alunos rumo à conduta virtuosa. Ademais, os genitores confiam plenamente na presença do profissional, permitindo que seus filhos frequentem a academia sob a supervisão de quem detém tal titulação, independentemente de quão modesta seja.

3.1 Os Contramestres de Ibitupã

3.1.1 Juedison Ferreira

O professor Risadinha foi um dos agraciados e, com seu jogo seguro, mereceu a graduação. Ele atua na capoeira há mais de vinte e seis anos. No momento, trabalha como coordenador do PSF Antônio Kallil Dourado, em Ibitupã, e na Clínica São Roque, em Ipiaú. Unindo a capoeira e a vaquejada (sua outra paixão), Juedison Ferreira continua fazendo seu trabalho com leveza e muita resenha.

3.1.2 Amauri Leão

O professor tem vinte e seis anos de capoeira. A princípio, relutou em pegar a corda; no entanto, no momento em que os mestres o chamaram, convenceram-no a aceitar sua graduação. O capoeirista tem serviços prestados ao esporte, seja como professor ou como político. Já foi candidato a vereador e, católico desde que se entende por gente, viu no trabalho social o motivo para enfrentar as adversidades da vida.

3.1.3 Adenilson de Oliveira

O professor Cabeça foi um dos que merecidamente recebeu a corda de contramestre, principalmente pelo seu trabalho junto à comunidade de Ibitupã, distrito localizado no município de Ibicuí.

No momento, ele dá aulas gratuitamente, sem nenhuma ajuda do poder público municipal. Por ser versátil, já participou da Banda Nazzueira nos anos 2000 e é o idealizador de eventos como As Nossas Raízes e o Vou Capoeirar. Agente cultural e social, ele faz um trabalho primoroso orientando crianças e adolescentes na prática da capoeira, muitas vezes empregando energia e recursos financeiros próprios para ver o projeto dar certo.

Um dos capoeiristas mais respeitados, ascendeu rapidamente no grupo Filhos de Canjiquinha, ganhando elogios de mestres como Darkson Alves (Kinho) e Luciano Thiago (Me. Pó).

4. Os Mestres e a Continuidade do Legado

Segundo Dias Gomes, “[…] a capoeira não tem credo, não tem cor, não tem bandeira, ela é do povo, vai correr o mundo.” Neste sentido, concorda com autor o Cme. Cabeça quando afirma que:

A capoeira é laica no sentido restrito porque ela comporta praticantes de todas as religiões. Então, ela é inclusiva, uma vez que joga gordo, magro; preto e branco; pobre e rico. Mesmo eu tendo ciência de que ela (capoeira) é uma ferramenta de transformação social que carrega uma transcendência afro-brasileira. A Capoeira é instrumento de resistência e luta de um povo que fora escravizado, a maioria destes ligada a praticantes de religiões de matriz africana […] (CABEÇA, 2026).

Os ibitupaenses alegraram-se com as graduações dos Mes. Darkson Alves e Luciano Thiago — ou seja, Kinho e Pó. Apesar de serem da cidade vizinha de Dário Meira, eles têm uma forte ligação com a capoeira ibitupaense, ao serem os precursores da arte no distrito, e suas histórias se confundem com a própria trajetória dessa nobre arte na região.

                                                              Figura 3 – GMe. Pó e Me. Amado. 

Fonte: Santos (2026).


5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O reconhecimento e o fortalecimento da capoeira em Ibitupã repercutiram amplamente na sociedade civil e em diversas instituições locais. Demonstração disso foram as notas formais de congratulações publicadas por entidades como o Clube Ibitupaense de Xadrez, a Unidade de Reforço Escolar Edezio Pereira dos Santos e o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) de Ibicuí-BA, reafirmando o valor sociocultural e educativo do trabalho desempenhado pelos novos contramestres no município.

Contudo, apesar das felicitações e do amparo moral vindo de tais instâncias, ainda falta um reconhecimento incisivo por parte do poder público, especialmente mediante a alocação contínua de recursos financeiros e investimentos estruturais. A prática da capoeira não pode depender unicamente do esforço voluntário ou do custeio próprio de seus agentes para se manter viva e atuante.

A ascensão de Juedison Ferreira (Risadinha), Amauri Leão e Adenilson de Oliveira (Cabeça) ao grau de contramestres simboliza a consolidação de um trabalho comunitário persistentemente erguido. Por fim, o evento em Boa Nova e o destaque alcançado por Ibitupã reforçam que celebrar os 30 anos dessa história exige também a cobrança por políticas públicas efetivas, garantindo que o berimbau continue ecoando com o devido suporte institucional e financeiro para as futuras gerações.

Mesmo diante dessa necessidade de apoio institucional, ter três novos contramestres coloca Ibitupã em lugar de destaque, trazendo um orgulho que ultrapassa as rodas e alcança toda a sociedade local.

 

Referências

CANJIQUINHA, Me. (Washington Bruno da Silva, 1925–1994). Alegria da Capoeira: Tradição e Fundamentos da Capoeira Baiana. Salvador, BA. Disponível em: https://www.fundacaocultural.ba.gov.br.

CLIMATEMPO. Dados meteorológicos e registro de temperatura para Boa Nova (BA) em 12 de setembro de 2026. São Paulo, SP, 2026. Disponível em: https://www.climatempo.com.br/previsao-do-tempo/cidade/2493/boanova-ba.

GOMES, Dias (1922–1999). Citações e Pensamentos sobre a Capoeira e a Cultura Popular Brasileira. Rio de Janeiro, RJ. Disponível em: https://www.academia.org.br.

IBICUÍ (BA). Lei nº 142, de 27 de maio de 2022. Dispõe sobre a autorização ao Poder Executivo para a inclusão do ensino da Capoeira nas Escolas do Município de Ibicuí-Bahia, e dá outras providências. Diário Oficial do Município de Ibicuí, ano 10, n. 2424, p. 2-4, 1 jun. 2022.

PASTINHA, Me. (Vicente Ferreira Pastinha, 1889–1981). Capoeira Angola. Salvador: Editora Typographia Beneditina, 1964. Disponível em: http://www.iphan.gov.br.

SANTOS, Calyane. Capoeiristas reunidos durante o batizado de capoeira em Boa Nova. 2026. 1 fot. Fotografia integrante do artigo "Tradição e Respeito: O Impacto dos Três Novos Contramestres em Ibitupã", de Leandro Bahiah.

UNESCO. A Roda de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, 2014. Disponível em: https://ich.unesco.org/pt/RL/a-roda-de-capoeira-00892.


[1] Graduado em Pedagogia pela Unopar (2019) e Pós-graduado em Psicopedagogia Institucional e Clínica pela Faveni em (2020).

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