quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

MINHA VOCAÇÃO

Por: Pericles Gomes
Imagem: Internet

Mainha, certa vez me perguntou o que eu queria ser quando crescer, custei a encontrar a resposta. Só agora descobri: "Quero ser um pregador da alegria, quero propagar a felicidade". Daí a minha afeição pela frase magistral de um grande filósofo holandês-português do século XVII,  Baruch Espinoza: "A felicidade não é um prêmio da virtude, é a própria virtude". (E a título de conhecimento: virtude, vem do Latim VIRTUS, "força moral, valor, hombridade". VIR, homem, varão).

Quero tão somente fantasiar-me de palhaço e emaranhar-me na alma humana, pondo ali um rasgo de alegria, um devaneio que esteja intrínseco ao desejo latente de viver.  Quero colocar em seu coração um sonho do tamanho da sua importância para Deus, o Criador, que foi capaz de ofertar-se por todos e cada um de nós. Vocifero tal qual Pessoa que: "Tenho em mim todos os sonhos do mundo". No entanto, não os quero só pra mim, ambiciono esmiúça-los e reparti-los entre os ávidos e carentes por eles.

Desejo impregnar o homem de poesia. Mas, uma poesia que seja capaz de criar novos mundos, de fertilizar novos desejos e principalmente gerar beleza. Vislumbro que as pessoas se encantem com aquilo que tenho crido que é essencial: "Vestir-se do sentimento por excelência, o amor". E depois disso tudo desejo mais abundantemente, que a nossa capacidade de resiliência, se aflore sempre e cada vez mais. 

Quero ser pregador, quero que de minha boca saia sempre palavras vivas e que ao menos um, dê guarida à elas. Mas se não encontrar, dar-me-ei por satisfeito, pelo magnânimo prazer de ser um vocacionado, que prega a alegria e propagar a felicidade.

Enquanto isso, vale lembrar a poesia que Marcelo Jeneci e Chico César transubstanciou em canção (Felicidade):

Haverá um dia em que você não haverá de ser feliz...

Sentirá o ar sem se mexer

Sem desejar como antes sempre quis

Você vai rir, sem perceber

Felicidade é só questão de ser

Quando chover, deixar molhar

Pra receber o sol quando voltar

Lembrará os dias...

que você deixou passar sem ver a luz

Se chorar, chorar é vão

porque os dias vão pra nunca mais

Melhor viver, meu bem...

Pois há um lugar em que o sol brilha pra você

Chorar, sorrir também e depois dançar

Na chuva quando a chuva vem

Tem vez que as coisas pesam mais...

Do que a gente acha que pode aguentar

Nessa hora fique firme

Pois tudo isso logo vai passar

Você vai rir, sem perceber...

Felicidade é só questão de ser

Quando chover, deixar molhar

Pra receber o sol quando voltar

Melhor viver, meu bem...

Pois há um lugar em que o sol brilha pra você

Chorar, sorrir também e depois dançar

Na chuva quando a chuva vem.


É CARNAVAL EM MIM

Por: Frei Betto
Dentro de mim há um imenso salão colorido por confetes e serpentinas e, entre tanto ruído, sinto medo. Medo dos fantasmas que me povoam, dos demônios interiores, dos anjos de asas quebradas. Beiro o abismo da ilusão e sou tomado por vertigens e, no entanto, não aspirei lança-perfume.
Quero o baile, a fantasia, a loucura insaciada dos que fazem desfilar em blocos seus desejos irrefreáveis. Arranco do coração uma por uma das máscaras de minha coleção: a do cínico, do farsante, do pusilânime. Quero-me nu, completamente nu, na passarela em que me exibirei pelo avesso: aversões e preconceitos, contradições e mesquinharias. Sairei de barro e sopro, tal qual Deus me pôs no mundo.
Estou ávido da batucada capaz de eriçar cada célula de minha pele e, na ponta dos pés, dançarei sobre o aro do pandeiro até que a cuíca me desperte a consciência. Abrirei a torneira de meu televisor e deixarei que escorra pelas escadas da casa toda a impotência das mulheres adornadas de falsa beleza e a prepotência dos homens que não sabem fortalecer a musculatura da alma.
Cessado o burburinho das ruas, esmaecidas as luzes, adormecidos os foliões, atravessarei sozinho o sambódromo e recolherei pelo chão as sombras das tristezas fantasiadas de alegria, das lágrimas contidas no ritual do riso, das ilusões defraudadas pela realidade. E deixarei ali os retalhos dessa descomplacência que me atordoa o espírito, na esperança de que a magia do próximo desfile exiba, em carro alegórico, essa represada voracidade amorosa.
Não irei atrás do trio elétrico, a menos que ele cesse o movimento, desligue o motor, emudeça a turba e, num gesto inusitado, faça do silêncio a matéria-prima da festa. É disto que preciso, avidamente: desfantasiar a subjetividade, escutar a própria intuição, deixar que esse cortejo que me habita ganhe as ruas, esvaziando-me de mim mesmo. Há demasiado entulho em minhas cavernas interiores.
Se por acaso me encontrar com Momo, hei de sugerir que se aposente. Carnaval já não é a festa da comilança que empanturra o estômago. São os olhos que, glutões, engolem sôfregos todos os seios e bíceps e coxas e nádegas e braços e pernas, sedentos de narcísico reconhecimento e imprimindo ao espírito o fastio irremediável, tão enjoativo quanto à certeza de que, das cinzas da quarta-feira, a fénix da esbeltez não renasce.
Se a bateria prosseguir ressoando em meus ouvidos, apelarei a Orfeu que me empreste a sua lira e me permita mergulhar nos mares subterrâneos de meu inconsciente. Aspiro pelo canto inebriador das musas e prefiro a agonia solene do órgão e a suavidade feminina da harpa aos sons desconexos dessa parafernália eletrônica que bem traduz minhas atribulações.
Carnaval é feito de momentos e eu, de tormentos. Devo fugir para alguma ilha deserta abscôndita no mar revolto de meu plexo solar ou fingir na avenida que os deuses do Olimpo vieram coroar-me? Ah, quem dera que eu pudesse trocar de caráter a cada nova roupa, rasgar os mantos lúgubres que não me protegem do frio, acreditar nessa inversão de papéis que me conduz à apoteose exatamente quando o show é obrigado a cessar.
Talvez eu entre numa roda de crianças piratas que roubem meu estorvo e peça à Colombina não mais que um piscar de olhos para alegrar meu Pierrô. Ao soar do apito, cantarei solo meu samba-enredo em homenagem ao Arlequim – esse retrato de mim.
Ao amanhecer, quando o exército da faxina adentrar, serei encontrado estirado no asfalto, cada pedaço espalhado num canto, à espera de que suas vassouras me juntem os cacos, cicatrizem-me as articulações, energizem os meus ossos e inflem a minha carne, até que eu consiga o mais difícil – fantasiar-me de mim mesmo. Ficarei tão leve que, com certeza, voarei sem asas, embriagado pela euforia que o Carnaval pressente mas não sente.
Sim, eu quero mais, quero um Carnaval que nunca cesse e seja tão sem limites que faça os mortos dos cemitérios sairem pelas ruas num infindável cordão, entoando loas à vida, e que o brilho do coração irradie tanta luz que traga aos meus olhos a cegueira para o transitório. Sejam ternas e eternas as minhas alegrias, distantes dos melindres fugidios, entregues às mais puras melodias, às mais inefáveis poesias.